sexta-feira, 2 de maio de 2014

Sobre a Freguesia do Pó

Sítio significa um lugar assinalado por algo de notável que nele acontece.  Ao encetar este espaço de opinião parece-me de todo pertinente falar do que mais notável se faz no território que melhor conheço – o da Freguesia do Pó.
É verdade que o Bombarral é sobejamente conhecido pela qualidade da Pêra Rocha e do Vinho que produz, mas não é menos verdade que não há bom vinho sem a boa qualidade das videiras de que advém.
Desde a última metade do século passado, o Pó veio-se a tornar comummente conhecido de norte a sul do país como a “terra dos bacelos”. Aproveitando a várzea fértil e a abundância de água, os agricultores foram apostando na proliferação das estacas de bacelo, e, paralelamente o aprofundamento da técnica de enxertia maquinizada como de obter o “enxerto-pronto” de videira, facto que veio a consolidar a nossa posição como principal centro nacional de produção de videiras, destino natural dos viticultores que pretendem instalar ou converter as suas vinhas.
Estamos já em plena campanha de produção de 2014 e é assinalável o trabalho e a dedicação dos principais intervenientes deste processo: permito-me fazer o enaltecimento dos viveiristas que produzem, criam emprego e que assumem esta responsabilidade quer económica quer tecnológica. O aprofundamento da técnica de enxertia permite a obtenção de maior êxito no pegamento mas a melhor qualidade fitossanitária repercute-se necessariamente na qualidade dos vinhos que temos à mesa.
Os dados revelam que em Portugal estamos ainda longe do potencial produtivo de vinha e que o mercado nacional carece anualmente de cerca de 42 milhões de videiras apenas para a reconversão do vinhedo. Ou seja, quer para a instalação de novas vinhas, quer para a reconversão das existentes Portugal não é ainda auto-suficiente.
Portugal produz anualmente cerca de 30 milhões sendo que só no nosso concelho produzimos 60% dessa produção. Quando muito se fala em crescimento económico, aumento dos índices de produtividade e na balança comercial de Portugal é importante reflectir acerca do que é necessário para que possamos potenciar a produção e inverter o sentido da importação, apontando para tal as adversidades que o sector viveirista enfrenta bem como as soluções possíveis.
Quando falamos de adversidades entendo que o factor risco assume maior relevância. Vejamos: a falta de planeamento quer de reconversão quer de plantação do ano consequente causa no viveirista a dificuldade em prever as necessidades de mercado, assumindo em si o risco da selecção das castas a enxertar. Ora isto reflecte-se geralmente no mercado nacional ou em excesso ou em ruptura de stock. O excesso tem implicações financeiras na cadeia produtiva do viveirista que não escoa o seu produto quando assume já as despesas de produção da campanha do ano seguinte. A ruptura tem implicações no panorama económico nacional pois trava o aumento do potencial produtivo do nosso país. Falar destes riscos assumidos pelos viveiristas é pois ir de encontro às soluções mais plausíveis: haver mais e melhores incentivos à plantação e reconversão, mais agilidade no desbloqueio dos fundos de comparticipação e mais consolidação dos planos de plantação.
Não tenhamos pois dúvidas que ultrapassadas as implicações de calendarização conseguiremos produzir ainda mais e consolidar a nossa posição no enquadramento vitivinícola. Falar do estado do sítio do Bombarral é reconhecer o papel determinante do melhor que fazemos e do nosso contributo para a resolução das dificuldades que o nosso país enfrenta.
É importante que todos os quadrantes da sociedade se envolvam na resolução dos problemas que ainda temos pela frente. É pois por isso indispensável avaliar os vários sectores produtivos, reconhecer-lhes a devida importância e acima de tudo perspectivar-lhes novos caminhos para que possamos contribuir de forma responsável para o desenvolvimento do nosso concelho e do nosso país.

Arq. Nuno Diogo Bernardino

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